9 de mar de 2013

Carta para algum santo


Oi santo.
Acho que não quero nada não. Tudo bem que um dinheiro a mais na carteira, um sorriso a mais daquela menina e um dia a mais de vida, tava de boa, mas hoje não quero nada não.
O morro alagou de novo, o povo ficou puto de novo, mas, não quero nada não.
O carnê da TV vai vencer, o ratinho tá passando no SBT, mas não quero nada não.
Aquela moça bonita, do laço de fita, disse pra mim que o negócio não é com ela.
Não adianta mais ter aquele gol velho com o som novo, uns trocados no bolso e um sorriso dengoso.
Ela quer estudo e carteira assinada, moço.
Esses dias atrás ela tava contando pra mim que sonha em sair do morro, sim. Mas também sonha em voltar.
Ela me contou que reza todos os dias pro senhor, pra ver se um dia ela entende aquele negócio doido de física, que as reações químicas não sejam tão difíceis e que ela vá bem na prova.
Uma prova que ela vai fazer lá não sei aonde, pra tentar conseguir um diploma.
Um diploma de não sei o que.
Eu sei que ela quer cuidar da gente, sair do morro pra estudar e voltar pro morro pra cuidar.
Acho que ela vai virar doutor, senhor.
Agora, acho que quero pedir uma coisa sim.
Aquela menina que não sabe nada da vida, sonha alto.
Quero ver ela doutora, pra poder sonhar em ser doutor também.
Não é inveja não, é vergonha. Ela me dá aqueles livros, mas eu não sei nem ler..
Os policia vive me parando, mas eu nem sei por quê.
Santo, me faz ler, faz. Aqueles negócios não parecem tão difíceis!
Deixa eu ensinar aquela química doida pra ela e aprender em troca a tabuada, deixa, vai.
Eu quero ter um futuro diferente, igual ela vai ter.
Eu não quero mais ser parado por policia e quero poder me defender.
Senhor, não quero ir preso. Não me deixe ir parar na TV.
Ajuda eu, vai.
Ajuda ela também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário