6 de fev de 2013

Morte prévia


Digamos que Carlos não era o melhor carcerário e seu trabalho não era exatamente vigiar encarcerados.
Seu trabalho era importante, certamente. Todavia, insignificante também.
Nunca fora chamado para ir até a escola de seu filho e falar de sua profissão. Nunca nenhum colega dos tempos de escola mostrou ter inveja do seu emprego. Porém, era o que pagava suas contas e de lá não iria sair, afinal, a insalubridade e a garantia de aposentadoria mais cedo era um dos privilégios de ser quem era.
Porém, há uma história que gosta de se lembrar todos os dias.
Enquanto Carlos vigiava fielmente o portão, pensava em como aquilo era exaustivo e em como o dia estava quente. Não podia usar boné e até seu couro cabeludo suava.
Foi então que apareceu uma figura peculiar.
Um cara bem vestido, com um sapato bem polido e o carro do ano, desceu em marcha lenta do carro, parou no portão e acenou para Carlos. Dizia boa tarde, também.
Carlos educadamente não retribuiu nem um pouco a educação e os deveres da sociedade para com o outro. Queria saber o que ele estava fazendo lá.
O cara, então, começou a falar.
Teu nome era Manuel e queria ir preso. Sim, ir preso.
O maldito disse que havia matado alguém e que não merecia mais conviver em sociedade.
Queria ficar em um lugar que pudesse ser igual aos outros; Entrar ali.
Carlos disse para ele ir embora, mas não tão gentilmente: “Seu idiota. Vá embora. Procure teu advogado ou a policia. Ou melhor, fuja. Você nunca irá querer viver aqui”
Não deu certo.
Manuel era extremamente insistente. Ameaçou tentar pular o portão que Carlos tão fielmente protegia.  Levou alguns choques ao chegar ao alto da grade e então caiu estático no chão.
“ESTÚPIDO! BURRO! VOCÊ É UMA ANTA MESMO.” – Berrou Carlos.
E foi ai que Manuel se levantou, chorou ao olhar para Carlos e confessou seu fatídico crime: “Matei a mim mesmo, homem. Deixe-me fugir daqui.”
“Vá embora. De que te adiantou ter dinheiro se ficou louco?”
E Manuel foi.
Nunca mais se viram pessoalmente, até que numa manchete na primeira página o jornal estampou: “Manuel Arruda comete suicídio após matar todos em sua família.”
Ele realmente havia se matado. E matado a outros também.
Ficou a dúvida: Por quê havia confessado tão previamente?

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