15 de jan de 2013

Sapatos perdidos


Nosso guarda roupas era organizado da seguinte forma: Não havia sequência.
Todas as manhãs você ficava louco procurando uma gravata importada que ganhou de não sei quem e eu ficava brava porquê meus sapatos estavam todos misturados.
Um dia eu contratei aquela personal-arrumadeira-organizadora e ela organizou tudo. Tudo.
Todos os sapatos tinham sua caixa, todas as gravatas ficavam em uma gaveta, suas camisas tinham cabides próprios e estavam milimetricamente bem passadas.
Nossas manhãs se tornaram surreais, desde então.
Tínhamos tempo para conversar, discutir e dizer coisas ruins. O café era sempre horrível, os problemas eram sempre gigantescos e nunca mais houve uma risada naquele horário matinal de nossa querida rotina.
Até que eu tomei uma decisão: Baguncei tudo. Tudo.
Misturei suas gravatas com minhas calcinhas e resolvi que suas camisas não precisavam tanto de espaço quanto meus suéteres que eu nunca usava.
É claro que você ficou bravo e novamente toda manhã você ficava louco porque queria aquela gravata que só combinava com aquela camisa que combinava com aquele terno que combinava com aquele sapato.
Ignorei tudo.
No final da tarde, quando eu encontrava a gravata certa, que você havia me pedido de manhã, nós ríamos intensamente.
O café estava maravilhoso, desde então. E parece que nos tornamos pessoas melhores.
O pão de queijo parecia que tinha mais queijo e o seu mamão parecia mais doce.
Te contei a minha teoria sobre isso: Não funcionávamos muito bem na normalidade. Você concordou, vimos um daqueles filmes que sempre passam na sessão da tarde ou na temperatura máxima, tomamos um vinho e dançamos quando ligamos o rádio.
Estávamos felizes: Apesar de você toda manhã querer me matar para achar suas gravatas e camisas prediletas, sempre achava alternativas iguais ou até melhores.
Era incrível como nossa sincronia era diferenciada de manhã: Enquanto não falássemos da desorganização, de sapatos perdidos e gravatas certas, acho que não seria o dia certo.
E continuei mantendo a desorganização até que resolvemos – novamente – organizar as coisas.
Da mesma forma, não deu certo.
Da mesma forma, baguncei tudo.
- Querido, não somos normais. Não tente. Você adora bancar o detetive todas as manhãs e eu também.
- Eu sei. Será que um dia vamos aceitar isso¿ - Disse ele, enquanto mexia em meu cabelo, tentando bagunça-lo.
- Acho que não. Acho que faz parte do processo. – Sorri para ele.
- Que processo¿
- O de felicidade, querido.
Continuamos sendo felizes e com gravatas e sapatos perdidos.

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