18 de jan de 2013

Maybe a new life


Era só mais uma daquelas manhãs calmas, sem nada pra dizer ou café pra acompanhar. O bule soltava um leve grito, demonstrando que a água já tinha fervido. Chá de ervas. Ela se levantou da cama novamente, calçou seus chinelos e foi em direção à cozinha. Colocou um pouco do líquido quente em seu copo e começou a cheira-lo, assopra-lo e esperar que ele logo esfriasse um pouco.
Seu marido levantou, disse um bom dia rotineiro, pegou uma xícara e se serviu mais do que a mulher tomava, sentaram de frente um para o outro.
- Oi. – Ela disse, enquanto colocava o cabelo atrás da orelha, ajeitava a xícara numa posição confortável e se ajustava a cadeira.
- Oi. – Ele completou, posicionando a xícara perto do meio da mesa, o suficiente para ela poder ver que já tinha tomado quase tudo.
- Quer mais?
- Não, obrigado.
- O que vamos fazer hoje?
E foi ai que ele finalmente resolveu fazer alguma coisa diferente do que costumavam fazer: Ele queria pescar, é verdade, mas também queria ir ao centro da cidade com ela. Fazia apenas alguns anos desde que não ia e certamente o peixe lá seria mais fácil de ser encontrado.
- Quero ir ao supermercado. – Ela arregalou os olhos, foi até o banheiro e verificou o horários dos remédios dele. Algo estava funcionando.
- Ok, vamos nos arrumar. Mas.. Você tem certeza?
- É claro. Quero comer peixe hoje. – Disse ele, sorrindo como uma criança de dois anos faz quando ganha um presente novo.
- Quer que eu te ajude a escolher sua roupa?
- Não, obrigado, querida. Consigo fazer isso sozinho.
Ela se trocou e ele também. Quando ela ia pegar as chaves do carro, ele apareceu com um riso triste.
- Aconteceu alguma coisa? - Enquanto dizia isso, ela correu até ele e começou a verifica-lo meticulosamente com os olhos.
- Claro que não. Achei que estava te atrasando e não quero isso.
- Oh, não querido. Não se preocupe. Você nunca me atrasa. Vamos, sim?
- Ok. – Enquanto colocava as mãos no bolso, ele olhou para cima e perguntou: - Você pode comprar uma daquelas balas de caramelo?
- É claro. Compro um pacote daquele para você!
E eles foram ao supermercado. E ela, depois de oito anos, conseguiu estampar um sorriso pedindo o peixe rotineiro de quartas feira.
Ninguém entendia o porquê, a não ser ela, cuja qual era a maior sofredora de ter um marido com um transtorno psicótico, conhecido como alguns por TOC.
Ele nunca havia quebrado sua rotina e agora, com uma nova esperança, ela estava disposta a tentar mais.
Um marido, finalmente.
Uma nova vida, talvez. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário