28 de jan de 2013

Intocável


Intocável. Esse era seu apelido desde a infância pelos criados de sua casa.
Seu pai, um rico banqueiro da década de 1910, chegava todos os dias com novas boas notícias: As ações aumentaram, tem mais dinheiro, mais carros, mais casas e mais pretendentes para sua querida filha de cinco anos.
Sim, ela tinha cinco anos e pretendentes.
O tempo passou. Ela sempre teve ótimas notas na escola: Era a melhor aluna da sala. A melhor do curso de francês, de espanhol e italiano. Falava fluentemente qualquer uma das três línguas aos 15. Aos 16 passou em Harvard para estudar inglês, mas preferiu se dedicar a qualquer uma das matérias que envolvessem artes, tintas ou coisas do gênero.
Em 1929, com 24 anos, ficou pobre. O curso fora cancelado por falta de pagamento o que acabou deixando-a sem diploma.
Ninguém naquela época precisava de uma secretária poliglota, pois todos estavam falidos. Precisavam menos ainda de uma artista poliglota com uma técnica diferente de pintura.
Seus cavalos foram vendidos, seus carros, suas casas, tudo para liquidar dívidas.
Ficou sem nada.
Começou a lecionar em troca de comida, em um colégio de freiras. Aos poucos fora conquistando a confiança e algum salário em troca.
Mas ainda passava frio nas noites de inverno de New York.
Já na década de 40, no ano de 1945, com seus 40 anos, decidiu se aventurar novamente e gastar o pouco que juntou ao longo de sua carreira como professora: Foi viajar para Paris, conheceu o Louvre e alguns artistas.
Pintou novamente.
Se perdeu também.
Apesar de falar francês, ela tinha sotaque. Não poderia nunca dar aulas ali.
Estava longe de casa, sem dinheiro, sem quadros, sem tinta e sem alunos.
Andarilho virou.
Aos 50, depois de muito mendigar, conseguiu adentrar em um navio para viajar de volta a América.
Seus pais já haviam morrido e seus amigos também.
Preferia ter ido à guerra, dizia ela.
E a crise passou. Uma nova onda de prosperidade chegou. Rica novamente, ficou.
Gastou tudo antes que pudesse ver e quando se deu conta, não havia vida, dinheiro ou vontade de alguma coisa.
Morreu triste, queria mais.
Mais alguma coisa que se perdeu.
Intocável era. Mendiga era. Pobre era. Rica era.  Era.
Se foi. 

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