29 de jan de 2013

Indesejável


Sua história, de fato, nada ajudou em mudar a sociedade e seu nome não está nos livros de história.
Dentro de si acreditava que era diferente.
Era canhota, o que para época, era nascer de pá virada ou bunda para a lua.
Seu sorriso faltava um dente canino, seus olhos não eram azuis e piscavam constantemente.
Não era loira.
Não era rica.
Não morava em fazendas.
Não foi há escolas da alta sociedade.
Não fez um curso de verão de boas maneiras.
Não sabia costurar (e muito menos cozinhar).
Sabia ler, mal, mas sabia.
O bê-á-bá era incrivelmente difícil sozinha e seu pai insistia em jogar o jornal fora após lê-lo, todas as manhãs, assim teria a certeza de que ela não iria se habituar demais a ser moça da cidade e sem a criação adequada.
Então, quando ela chegou ao alto dos seus quinze anos, uma governanta encarregada de ensinar-lhe tudo que a mãe não conseguiu, chegou.
Alzira era seu nome.
Alzira não rima com maldita, mas é sonoramente compatível, o que trazia a tudo aquilo algum sentido.
Alzira ensinou como ter calos nos dedos costurando, como curá-los com alguma receita que anotou em um caderninho e que cozinhar era terrivelmente ruim.
Mas não superava passar roupas.
Amaldiçoar todos os deuses do olimpo não foi o suficiente.
Todas as vezes que se queimava enquanto usava o ferro, que se machucava costurando com a máquina ou que se cortava fazendo o jantar, se lembrava da Maldita dizendo que nenhum homem iria querê-la.
Ela sabia disso e se empenhou bravamente em tornar isso ainda mais fácil.
Não era prendada, não era estudada, não era nada.
Na verdade, era uma única coisa para a sociedade em que vivia: Indesejável. 
E foi assim que não se casou, não se importou e foi há um único velório conscientemente feliz: O da Alzira, a Maldita.
Sua verdade se propagara: Ela não iria se casar. Assim como Alzira também não.
Foi ai que percebeu suas semelhanças, diferenças e percebeu que não eram tão diferentes quanto supunha: Eram tão iguais na medida do possível.
Desde então é contratada para dar aulas sobre deveres do lar.
Seu nome não rima com Maldita ou Alzira.
E sim com Maligna. Afinal, Mariana era.

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