9 de jan de 2013

Ele também


Eu queria que fosse mentira, desejava com todas as minhas forças. Porém, quando ele entrou naquele trem e foi aos poucos indo embora, pra bem longe de mim, entendi a realidade: Ele foi embora realizar seus sonhos.
Era engraçado o fato de que o apoiei em todos os dias, enrascadas, iniciativas e medos. Ajudei ele a mandar aquele maldito currículo para aquela maldita universidade, ajudei ele a escolher a casa, o sofá, a cama e até a cor das paredes.
E o maldito ainda assim foi embora.
Antes, nós vivíamos dias adoráveis: Ele saindo do trabalho naquela escola de ensino médio, indo me buscar no meu escritório, logo depois nós dois passávamos naquele restaurante que gostávamos, comprávamos uma comidinha gostosa, íamos pra casa, jantávamos e então dormíamos.
Com o tempo ele começou a me contar de novas oportunidades, novos empregos, novas realidades... E então ele se foi.

- Você já olhou para a realidade e não para seus sonhos, Amanda?
- Mas, isso é impossível. Eu sempre vejo a veracidade dos fatos.
- Mentira. Você fantasia o tempo todo. Fantasiava seu casamento antes mesmo de um pedido de noivado, fantasiava sua mudança mesmo sem ele ter te convidado. Você não vive, você fantasia.

Depois daquela conversa, comecei a remexer em minhas dolorosas lembranças e a ver detalhes antes até então nunca vistos: Ele odiava aquele trabalho na escola, odiava dizer que um adolescente não podia ficar falando de sexo o tempo todo e corrigir suas provas de matemática. Odiava seu carro também.
Eu demorei, mas percebi também que toda vez que íamos naquele nosso restaurante, ele pedia menos comida. Ele comia menos.
Percebi também que ele odiava jantar à mesa: Preferia ver o noticiário e poupar tempo. E odiava ainda mais nossas conversas antes de dormir. Todas, inegavelmente, todas às vezes ele respondia apenas com um: “uhum” enquanto se dedicava a se concentrar em seus sonhos.
Ele nunca nem se quer deu um detalhe, ou encorajamento de que íamos nos casar ou de que eu devia me mudar junto com ele.
Foi difícil, é claro. Mas não tão difícil quanto perceber que eu vivi dois anos na mentira.

- Você está melhor?
- Bom, sim. Não choro mais, não tomo remédio mais, não penso mais.
- Você tem comido?
- É claro que sim. E ido a academia também.

Eu mudei. Me transformei. Me foquei na minha própria carreira, nos meus próprios sonhos. Me realizei.
Até que eu o vi naquela noite de dezembro, cujo dia gelado estava se tornando em polo norte no momento.
- Oi. Tudo bem? - Disse ele, vindo em minha direção. Já haviam se passado cinco anos.
- Claro e com você? - Disse eu, enquanto mantinha uma distância razoável dele.
- Bom, bem também. Consegui uma vaga na universidade daqui. Começo no início do semestre.
- Isso é ótimo! – Disse eu, enquanto isso, ele se aproximava cada vez mais para perto de mim, mexia em meu cabelo, sorria enquanto olhava dentro dos meus olhos. – Hmmm, me desculpe não poder conversar, meu namorado me espera. – O que de fato era verdade. Eu mudei, ele não percebeu.

Não sei se alcancei a felicidade plena, a paz plena ou qualquer coisa que traga a sensação de estabilidade, só sei que: Finalmente não tenho que me preocupar mais com alguém que não quer meu bem tanto assim.
O tempo passou e finalmente, ele também. 

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