6 de dez de 2012

Triste de felicidade



“Não havia ninguém lá. Somente eu, outras estrelas e uma paz que nunca tinha visto em lugar algum.
Também não havia oxigênio e eu não sabia como conseguia ainda respirar.
Meu vestido não voava e meu cabelo parecia sem vida. Para conseguir andar, era necessário um esforço meu tão grande, que desisti e apenas me deitei.
Olhando desajeitadamente a infinidade em que me encontrava, me perdi nos meus sonhos.
Sonhei que estava de volta ao planeta terra, que ainda observava as estrelas com meu telescópio e tirava fotos com minha câmera da lua.
Sonhei que podia voar, também.
Sonhei que era um planeta diferente, porém, acordei.
Estava eu, em um solo radiante e nada para fazer. Desejei imediatamente um caderno e uma caneta, algo para fazer.
Resolvi contar estrelas.
Parei quando cheguei à segunda: Ia ficar eternamente contando.
Lembrei de todos os meus livros já lidos, das histórias que cada um contava. Lembrei-me daquele bolo de laranja que minha mãe fazia e das histórias que meu irmão inventava pra justificar mais um risco na parede.
Ri de mim mesma.
Adorava estar ali, cercada de estrelas, porém, eu estava imóvel, não conseguiria jamais observar os quatro cantos daquele lugar, ver do que era feito ou compartilhar com o Thomas essa minha nova experiência.
Fiquei triste porque havia conquistado aquilo que eu tanto queria.
Triste de felicidade.
As horas pareciam estar passando, algumas figuras pareciam estar mudando de forma,  porém, nada realmente mudava.
Tudo naquele lugar era quase infinito: Não eram necessários movimentos bruscos, rapidez ou ansiedade.
Me cansei, como já havia me cansado uma hora depois que eu cheguei.
Desejei minha cama, meu travesseiro e aquele filme bobo da TV.
Desejei minha mãe e até as tarefas de casa.
Acordei do maldito sonho e percebi: Ainda ia querer morar em uma estrela. Porém, queria poder levar a TV a cabo, alguns cadernos, livros novos, paredes pro meu irmão rabiscar, minha cama, meu travesseiro, Thomas, minha mãe e o bolo de laranja. Só pra poder ter tudo que eu sempre quis sem sair de casa – Ou de uma estrela, no caso.
Só para ser egoísta a ponto de reunir tudo que eu sempre quis em um lugar só.”
Ela acordou. Ela nunca viveu em uma estrela. Ela nunca falou com o Thomas. Seu irmão nunca rabiscou uma parede. Ela nunca teve um telescópio e muito menos uma câmera. Ela nunca comeu bolo de laranja. Ela nunca conheceu sua mãe.
A única coisa que ela conhecia eram suas vontades: Que eram tantas e ao mesmo tempo tão poucas. Impossíveis para uma esquizofrênica e possíveis para um ser normal.
Queria ser normal, dizia ela.
Eu também, concordei. 

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