8 de dez de 2012

Sol inimaginável



- Fique quieta, o dia está amanhecendo – Disse Arnaldo enquanto se esticava e olhava fixamente o horizonte.
- Mas o nascer do sol não vai parar porque eu estou falando – Disse Clara enquanto arrumava os óculos e a franja.
- Não é esse o problema: Você precisa se concentrar. Imaginar... – E ele foi interrompido por uma súbita rajada de vento gelado.
- Imaginar o quê?
- Isso. Preste atenção, por favor. – completou ele.
Ela não via nada, porém, não queria contar isso para ele. Ela fez um esforço, se desconectou do mundo a sua forma e ainda só via ele. O sorriso dele no canto da boca enquanto apreciava a paisagem. O problema deveria ser ela.
- Você não conseguiu ver nada, não é mesmo? - Disse ele, olhando fixamente em seus olhos escuros.
- É.. Me desculpe. – Disse ela, abaixando o olhar, levando-a a encarar o chão.
- Te desculpar pelo quê? O problema de concentração aqui é seu. Enquanto não aprender a se focar, vai se perder rapidamente e inúmeras vezes. Você precisa encontrar aquilo que tanto quer, caso contrário, não sei o que será de ti. – Enquanto ele dizia essas palavras, mexeu no cabelo de Clara, afastando-o do rosto e subiu o rosto dela, levando seus olhares a se encontrarem novamente.
Ele acreditava nessa baboseira de concentração, de energias positivas e negativas e queria a todo custo que ela acreditasse que precisava mudar, pois estava indo em um caminho sem volta.
Realmente ela estava.
- Ok, um dia eu tento mais. – Disse ela se levantando, pegando a garrafa térmica, enchendo seu copo e tomando o líquido quente.  – Acho que vai nevar amanhã. Quer tentar novamente amanhã?
- Não, neve não serve. Hoje era o dia ideal e você o perdeu.
- Mas, mas.. Me desculpe!
- Te desculpar pelo quê? Você não me deve desculpas!
- Me desculpe por não conseguir acreditar em você, por não conseguir me concentrar no que você quer. Eu só tinha olhos para uma coisa, enquanto tudo acontecia.
- Olhos no quê?
- Você.
- Clara, pelo amor de Deus, não comece com esse típico discurso. Você é muito mais que isso.
- Ok, Arnaldo, posso até ser. Mas eu te amo do mesmo jeito.
Ela juntou suas coisas e foi embora.
Ele ficou ali, observando a montanha ficando cada vez mais verde bandeira, ao contrário da escuridão anterior. Continuava encantado pela natureza.
Ele queria muito se apaixonar por ela, mas, a verdade é que ele não conseguia pensar em mais nada que não fosse aquele maldito por do sol. Maldito, sim. Queria ama-la e não conseguia.
Ela chegou a sua casa trinta minutos depois, cansada. Havia descido a montanha rapidamente e ainda teria um longo dia pela frente.
- Não acredito que contei para ele...
- Não acredito que contei para ele... – Repetiu seu papagaio.
- Você me consola, Jake.
- Você me consola, Jake. – Repetiu novamente.
Voltou aos seus pensamentos até que o despertador a avisou que era hora de ir trabalhar.
Seu dia seria normal, afinal.
Enquanto abria a porta, Clara se deparou com uma imagem estranha: Arnaldo estava quase tocando a campainha.
- Oi. – Disse ela.
- Oi. – Disse ele.
- Não preciso de mais papagaios, Arnaldo.
- Não preciso de mais papagaios... Me desculpe, Clara. Eu queria muito gostar de você como você gosta de mim, mas é impossível. Não consigo. Eu juro que tentei.
- Obrigada por tentar, então. Agora eu tenho que ir trabalhar, até mais.
Eles continuaram amigos, é claro.
Ele continuou tentando convencê-la a se concentrar e todos os anos era a mesma coisa: Ele sorria para o sol, ela sorria para ele.
- Eu ainda te amo, Arnaldo. – Disse ela numa das vezes. Ele nem ouviu.

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