7 de dez de 2012

Maremoto m'eu



Meus pés estavam molhados e sujos de areia.  A barra da minha calça parecia pesar uma tonelada e meu caminhar ficava mais lento conforme os minutos iam se passando.
Não estava perdida, tudo bem. Mas gostava da sensação que praias à noite me dão: Paz. Sensação de estar perdida. Sensação de poder recomeçar tudo a qualquer momento.
Não me conhecia, naquele momento. Foi então que me aventurei.
Comecei procurando vestígios de um mar dentro de mim, algo a desvendar. Encontrei um riacho.
Tomei banho dentro de mim mesma, reguei algumas plantas intocadas até então no meu coração, tapei buracos na minha memória.
Não chorei, acredite se quiser.
Reconstrui uma casa abandonada dentro da minha alma e me vi inteira novamente: Uma planta dando frutos, uma mulher pronta para amar.
Amar significa doar-se. Será que estava eu pronta para compartilhar minha cabana, deixar alguém cheirar minhas flores, tomar banho no meu rio¿
Me perdi novamente no meio da floresta.
Caminhei durante horas e horas, acordei com um policial com olhar triste me dizendo que eu estava imunda, que o sol já ia nascer e que era melhor eu sair dali, da praia.
Havia eu realmente me perdido¿
Havia eu realmente dormido naquela praia, à noite, sem perceber¿
Imaginei diversas possibilidades de roubo, boa noite cinderela, estupros, mas estava tudo ali, inclusive minha carteira, cordão e bolsa. Menos eu mesma.
Não me reconhecia, certamente.
Fui andando até minha casa – Eu já estava desempregada havia uma semana, ainda restavam muitas economias. Podia muito bem curtir umas férias forçadas. – Troquei de roupa e o telefone tocou.  Me ofereceram um novo emprego em uma nova agência de publicidade que estava só começando.
Fui para a entrevista com aquela roupa que mais parecia comigo mesma no momento: Algo claro, sereno, que demonstrasse paz, porém, com movimento, assim como o mar.
Consegui o emprego.
Conheci novas pessoas.
Continuei procurando a paz inóspita conquistada naquele único dia, continuei procurando o mar dentro de mim mesma, ou mesmo aquele riacho.
Encontrei o lugar seco e vazio.
Era necessário começar de novo e deixar alguém me ajudar.
Precisava voltar para minha real casa e talvez nunca conseguisse fazer isso sozinha.
Foi ai que eu o conheci.
Obrigada.
Hoje meu riacho está cheio, minha cabana habitada por dois, minhas flores se multiplicaram e minha alma parece ainda mais serena e tranquila: Porém, a qualquer momento, sinto que um maremoto dentro de mim mesma pode acontecer.
Demarquei toda a floresta, para que, caso um dia me perdesse novamente, conseguisse voltar sozinha, encontrar novamente quem eu tanto procurei.
Eu mesma.

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