5 de dez de 2012

Esmeralda


Ela colocou sua cabeça no travesseiro cuidadosamente, enquanto esperava instintivamente a mão calorosa dele para acariciar seus cabelos. A longa espera de cinco segundos foi interrompida pelo silêncio em que o cômodo se encontrava.
Ela também não precisou pensar muito quando as lágrimas corriam por seu pálido rosto.
Um rápido sorriso – “O que irei fazer?”
“Com o que vou me agarrar, quando as coisas derem errado, como deram hoje?”
Ela passou a mão pela escrivaninha ao lado da cama enquanto procurava um objeto – seu celular.
Quando o achou e apertou um de seus botões, rapidamente o escuro em que o quarto se encontrava foi inundado por uma fraca luz azul que ardia os olhos até então fechados.
Nenhuma chamada perdida. Nenhuma mensagem de voz. Nenhuma mensagem.
Já haviam passado vários dias desde aquele fatídico dia.
Então, a história foi se reconstruindo em sua cabeça, assim como fazia com todas as outras que perseguiam sua memória e sua sobriedade.
Ele, Carlos, estava começando a demonstrar sentimentos diferentes por ela, divergentes do que ela chamaria de boa conduta ou talvez chamasse de amor.
Carlos queria muito dizer a ela que a amava, que queria segurar em sua mão e limpar seus olhos quando ela chorasse, mas, Esmeralda odiava qualquer tipo de toque físico – e até mesmo mental.
Se esquivou de qualquer chance de relacionamento pseudo amoroso com ele o quanto pode, até que ele acredite se quiser, a beijou. Beijou-a com a língua.
E ela gostou.
Isso soava tão pavoroso em sua cabeça, que quis morrer no momento em que tornou ao seu eixo.
Desde então não se falavam.  Porém, todas as noites ela sonhava com um carinho em seus cabelos que um dia talvez ele pudesse fazer. Sonhou tanto com isso, que se tornou real.
Então, quando parou, ela ficou louca.
Ele nunca mais ligou para ela – não que ela tivesse insistido muito do contrário.
Ouviu-se pequenos ruídos ao longo do silêncio antes evocado – Toques no celular.
Uma chamada.
“Oi.. Não é que.. Me desculpe. E-e-eu preciso muito de você.” Silêncio.
“Preciso quanto? Não sei se dá pra medir isso.. Muito. É, muito.” Silêncio novamente.
“Preciso do seu cafuné.”
Ele apareceu alguns minutos depois, entrou em sua casa pela porta da frente – nunca havia feito isso, ela era louca a ponto de achar isso um ritual sagrado destinado apenas a merecedores. Agora talvez ele fosse um. – Sentou-se ao seu lado na cama e finalmente fez o tão sonhado cafuné em sua cabeça.

Esmeralda acordou com os cabelos suados ao longo do rosto e corpo, havia sonhado.
Jamais ligaria para ele, assim como jamais receberia aquele cafuné.
Eles haviam terminado há tanto tempo, que antes não havia fios brancos em seu cabelo ruivo e hoje eles são predominantes.

Cinquenta anos se passaram e Esmeralda continuava a imaginar, como teria sido se aquele sonho tivesse se tornado, fatidicamente, realidade.
A tristeza toma conta do lugar, ela toma o sorriso novamente em seu rosto e diz, como uma brisa: “Impossível.”.

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