10 de dez de 2012

Carlos


Contar-lhe-ei a história de Carlos.
Carlos não nasceu naquele dia em que chovia muito, muito menos em um dia em que o tempo estava exuberante, o céu perfeitamente limpo. Ele nasceu em um daqueles dias qualquer em que ninguém se lembra. 
O parto foi normal. Assim como sua vida.
Sua mãe não sofreu tanto, nada digno de contar altas histórias sobre o nascimento do Carlos. 
Ele também nunca fora muito briguento, encrenqueiro ou bagunceiro. Brincava na medida certa, resmungava na medida certa. Porém, era normal. Nunca dera trabalho nenhum a sua mãe, ou seu pai.
Na escola Carlos tinha a média oito. No limite para conseguir passar todos os anos sem necessidade de recuperação (A não ser que fosse matemática, cuja média era sempre cinco. Sempre dois pontos a baixo do necessário. Porém, Carlos, como um garoto normal, tirava os pontos necessários estudando durante várias e várias horas antes da prova.)
Já no ensino médio Carlos se dedicou mais. Fazia frequentemente as tarefas e foi quando alguém lhe notou: O professor. Porém, como bom CDF que se tornou, Carlos começou a ir além das explicações, saber mais da matéria e o professor, claro, que antes poderia lhe explicar mais coisas sobre a tal matéria estudada, sabia tudo, mais um pouco e poderia contar o que seria o próximo passo. De CDF passou para chato.
Chegando no terceiro colegial, Carlos teve um impasse: Qual caminho seguir¿ Houve dúvidas durante meses. Decidiu desistir.
Após três anos e dedicação total à escola, depois de se tornar o chato, Carlos se tornou o imprestável.
Seu pai, que tinha uma loja de ferragens, o contratou imediatamente após ele fazer dezoito anos. Não era vendedor, nem da parte da administração, era o quebra-galhos; Não tinha função própria, salário próprio ou até vida própria.
Quando seu pai morreu, conhecia toda a loja e todos os tipos de serviço. Tomou a presidência como seu lugar e a loja faliu. Não era tão bom administrador assim.
Sua mãe, coitada, morreu de desgosto.
E ele ficou a mercê de qualquer coisa que lhe acontecesse.
Anos se passaram, Carlos se aposentou.
Não teve noiva, não teve filhos. Mas foi grato por uma coisa: Não perpetuou sua espécie. A espécie dos normais-que-falham-e-desistem.
Nunca ninguém lhe sorriu. Até que a morte, lentamente se encaminhou ao seu quarto, deitou em sua cama, sorriu para ele e beijou-o na boca.
Alguém, afinal, havia lhe sorrido.
Seu enterro foi o mais natural possível: Ninguém compareceu.
Fora cremado e jogado fora com o vento.
Havia morrido feliz: Alguém havia lhe sorrido. Alguém havia lhe amado mesmo que por alguns instantes, mesmo que a morte tenha sido trazida pelo amor. 

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