2 de dez de 2012

A feia descabida

Ela amava tanto que sufocava. E de tanto sufocar, desaprendeu a amar.
Era difícil descrever o que sentia, só sabia que queria. Queria desesperadamente um cachorro, um gato ou algum doce. Conseguia - afinal, o que uma birra não fazia?
Depois de algum tempo, passou a querer um namorado. Não conseguia.
Não era bonita, não sabia ser amável, afável ou qualquer qualidade que fosse desejável.
Era estúpida, não sabia escrever corretamente e egoísta. Um bom fotógrafo não conseguiria converter a imagem daquela pré adolescente em um anjo. Jamais.
Continuou a querer o namorado, porém também quis montar uma banda, que fora comprada prontamente. O guitarrista sempre dizia: "Você canta muito bem! Devia ser nossa vocal"
E ai o contrato acabou.
Quis também mudar de escola, afinal, ela não queria ser mais uma daquelas meninas da sua escola. Quis sair da escola, afinal, ela não se encaixava em nada. Quis parar de estudar, afinal, isso não era pra ela.
E quis tantas outras coisas, e conseguiu tantas de todas elas, que só faltara uma para preencher seu ser.
O namorado.
Foi parar em um spa. Ficou magra, arrumou os dentes e contratou um personal stylist pra vesti-la todos os dias. Fez um rápido cursinho, comprou a ida pra faculdade e começou a ir em todas as festas.
Bebia em todas elas.
Alguns se interessavam, é claro. Uma imagem ruim havia se tornado mais ou menos. E mais ou menos no fim da balada é normal.
Mas ela abria a boca. Falava asneiras. Qualquer bêbado saía da bebedeira na hora, voltava pro seu estado de alerta e fugia - pra bem longe.
No final de cada noite, início de cada dia, ela dormia. Sonhava com o namorado.
Até que desenhou-o. E esse desenho se tornou realidade. Uma realidade gay, aliás.
Não adiantava. Estava condenada.
E, com o passar dos anos, tentou até uma namorada pra mudar o rumo das coisas. Tentou o silêncio, a boca fechada, de tudo, mas sempre algum comentário vazava.
Não era pra ser. Era pra estar.
Ela esperou e não foi.  Ela espera e não será.
É feia tanto por dentro quanto por fora.
Queria se ajustar: Mas será que ela deixaria ser ajustada?
Ela amou quem quer que fosse até sufocar. Sufocou tantos em sua família, que hoje está sozinha.
Sofrendo em Paris.

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