13 de dez de 2012

Amo estar certa


Esse era seu objetivo, estar sempre certa. Ter a certeza de estar certa. A certeza da certeza. Com o tempo, a observação passou a ser mais apurada. Começou a palpitar até na mega sena e acertou. Porém também errou – Afinal, ela pode acertar, mas números precisam de mais do que um olhar no gato e outro no peixe pra conseguir decifrar qual código te dará os milhões.
Ela se tornou especialista em linguagem corporal: “Ele realmente tinha dor ou não?” “Ele me ama?” “Será que ficaremos juntos?”
Ela gostou.
Digo que ela, pois ela era dotada de um nome fatídico, feio e que poderia virar um livro por si só: Rebalda.
Re-bal-da.
R-e-b-a-l-d-a.
Era tão boa com números, tão boa com certezas e tinha um nome tão feio.
Linda, porém Rebalda, como diria Machado de Assis como Brás Cubas, ou vice e versa.
Rebalda convivia bem com seu respectivo dom especial bem treinado e seu nome feio, até que um rapaz lhe apareceu.
Ela teve a certeza: Ele iria lhe quebrar o seu coração.
Mas entendeu por que haviam tantos desperdícios na humanidade: É necessária a aprendizagem, ela diria.
Rebalda correu atrás dele, se apaixonou tão infinitamente que dali três meses ele nem existia mais. Porém, deixou um mar de destruição gigantesco.
Anos de dedicação na construção do “Escritório Rebalda: Sua certeza” Que falhou na primeira oportunidade. Na primeira paixão.
Ela tinha uma certeza e ela amava estar certa.
Dessa vez, tudo havia acabado.
Começaria de novo.
Assim como faria quando adquiria uma certeza jamais vista: Uma hora daria certo.
Ganhou a maldita esperança.
Continuou chamando Rebalda. 

12 de dez de 2012

Mudanças


Minha casa tinha aquela tão sonhada vista pra algum parque bem conservado, que os jovens como eu frequentavam no verão.
No inverno não via nada além de um branco interminável, que causava solidão a minha sacada.
Na primavera meu quarto se enchia de um cheiro diferente, algo novo, fresco.
No outono meu quarto se enchia de folhas, mesmo.
Pode-se concluir, por isso, que o verão é minha estação preferida.
Adoro a grama bem verde, brilhando toda manhã. As pessoas felizes – ou aparentemente – sorrindo para todos e sendo simpáticas uns com os outros.
As árvores combinando com todo o cenário, algumas flores que resistiram à primavera, sem frutos apodrecidos durante o caminho, bicicletas atrapalhando a passagem na calçada, skatistas com suas manobras em bancos ou qualquer outro lugar.
Um lugar cheio.
Eu gostava da solidão dentro de minha própria casa, ajudava a escrever, trazia criatividade. Porém, adorava ver a energia das pessoas, os grupos formados, amizades novas, sorvete, aquela sensação de coisa viva.
Mas o parque foi destruído sabe-se lá por que. Dizem que foi para construir um prédio – o que no final se tornou verdade.
Minha linda paisagem foi perdida pela insistência dos seres na procriação da solidão.
Afinal, apartamentos pequenos como os que estavam sendo construídos, não eram para famílias e sim apenas uma pessoa, duas talvez.
Perdi um parque, um cheiro, uma imagem, uma energia constante, para ganhar luzes acesas à noite toda.
Acho que preciso me mudar. 

11 de dez de 2012

Sunshine kiss


- Como é?
- Como é o quê, Helena?
- Ah, você sabe. Aquilo que os adultos fazem quando estão apaixonados..
- Você quis dizer como é um beijo?
- É.. Isso que eu quero saber como é. Como é um beijo? Como é beijar? Como sabe se está fazendo certo?
- Bom, eu não sei como é um beijo também, nem como é beijar e muito menos como saber se está fazendo certo.
- Mas, Mário, eu quero saber.
- Le, por favor, você e muito menos eu temos idade pra saber uma coisa assim.
- Eu tenho sim, ok? Já tenho doze anos. D-O-Z-E.
- E eu treze. T-R-E-Z-E.
- Chato.
- Insuportável.
- Será que vamos nos ver depois que o verão acabar?
- Bom, eu não sei. Onde você mora?
- Longe daqui...  E você?
- Longe também.
- Ah... – Helena fechou o sorriso em seu rosto e se sentou perto da água. Sentia levemente a água do mar batendo em seus pés, quase sem força.
- Eu quero te ver sempre, Helena. Mas nós moramos longe um do outro. – Disse ele se sentando ao seu lado.
- Quando você vai embora?
- Amanhã. Minhas aulas começam mais cedo, esse ano.
- Então hoje é nosso último dia?
- Acho que sim.. Me desculpa! Eu quero ficar aqui com você.
- Eu também quero ficar aqui com você, mas logo logo também vou embora.
- O que vamos fazer?
- Não sei, não sei. Eu quero que você tenha algo meu, pra sempre se lembrar.
- Eu quero que você tenha algo meu também!
- Já sei.
- O quê?
- Me dá um beijo.
- Helena! Não! Não vou te dar um beijo.
- Mas eu quero.
- Por favor, eu nunca fiz isso. Eu não quero te desapontar.
- Eu também nunca fiz isso, Mário. Me desculpe, ok.
- Que horas você tem que voltar pra casa?
- Depois do pôr do sol. E você?
- Também..
- Tá chegando a hora, né?
- Sim. – Alguns segundos se passaram. -   Helena? Helena?
- Hmmm...
- Olha pra mim. – Ela virou o olhar para ele.
E eles se beijaram. Com pôr do sol e tudo.
Helena nunca se esqueceu.
Mário também não. 

10 de dez de 2012

Carlos


Contar-lhe-ei a história de Carlos.
Carlos não nasceu naquele dia em que chovia muito, muito menos em um dia em que o tempo estava exuberante, o céu perfeitamente limpo. Ele nasceu em um daqueles dias qualquer em que ninguém se lembra. 
O parto foi normal. Assim como sua vida.
Sua mãe não sofreu tanto, nada digno de contar altas histórias sobre o nascimento do Carlos. 
Ele também nunca fora muito briguento, encrenqueiro ou bagunceiro. Brincava na medida certa, resmungava na medida certa. Porém, era normal. Nunca dera trabalho nenhum a sua mãe, ou seu pai.
Na escola Carlos tinha a média oito. No limite para conseguir passar todos os anos sem necessidade de recuperação (A não ser que fosse matemática, cuja média era sempre cinco. Sempre dois pontos a baixo do necessário. Porém, Carlos, como um garoto normal, tirava os pontos necessários estudando durante várias e várias horas antes da prova.)
Já no ensino médio Carlos se dedicou mais. Fazia frequentemente as tarefas e foi quando alguém lhe notou: O professor. Porém, como bom CDF que se tornou, Carlos começou a ir além das explicações, saber mais da matéria e o professor, claro, que antes poderia lhe explicar mais coisas sobre a tal matéria estudada, sabia tudo, mais um pouco e poderia contar o que seria o próximo passo. De CDF passou para chato.
Chegando no terceiro colegial, Carlos teve um impasse: Qual caminho seguir¿ Houve dúvidas durante meses. Decidiu desistir.
Após três anos e dedicação total à escola, depois de se tornar o chato, Carlos se tornou o imprestável.
Seu pai, que tinha uma loja de ferragens, o contratou imediatamente após ele fazer dezoito anos. Não era vendedor, nem da parte da administração, era o quebra-galhos; Não tinha função própria, salário próprio ou até vida própria.
Quando seu pai morreu, conhecia toda a loja e todos os tipos de serviço. Tomou a presidência como seu lugar e a loja faliu. Não era tão bom administrador assim.
Sua mãe, coitada, morreu de desgosto.
E ele ficou a mercê de qualquer coisa que lhe acontecesse.
Anos se passaram, Carlos se aposentou.
Não teve noiva, não teve filhos. Mas foi grato por uma coisa: Não perpetuou sua espécie. A espécie dos normais-que-falham-e-desistem.
Nunca ninguém lhe sorriu. Até que a morte, lentamente se encaminhou ao seu quarto, deitou em sua cama, sorriu para ele e beijou-o na boca.
Alguém, afinal, havia lhe sorrido.
Seu enterro foi o mais natural possível: Ninguém compareceu.
Fora cremado e jogado fora com o vento.
Havia morrido feliz: Alguém havia lhe sorrido. Alguém havia lhe amado mesmo que por alguns instantes, mesmo que a morte tenha sido trazida pelo amor. 

8 de dez de 2012

Sol inimaginável



- Fique quieta, o dia está amanhecendo – Disse Arnaldo enquanto se esticava e olhava fixamente o horizonte.
- Mas o nascer do sol não vai parar porque eu estou falando – Disse Clara enquanto arrumava os óculos e a franja.
- Não é esse o problema: Você precisa se concentrar. Imaginar... – E ele foi interrompido por uma súbita rajada de vento gelado.
- Imaginar o quê?
- Isso. Preste atenção, por favor. – completou ele.
Ela não via nada, porém, não queria contar isso para ele. Ela fez um esforço, se desconectou do mundo a sua forma e ainda só via ele. O sorriso dele no canto da boca enquanto apreciava a paisagem. O problema deveria ser ela.
- Você não conseguiu ver nada, não é mesmo? - Disse ele, olhando fixamente em seus olhos escuros.
- É.. Me desculpe. – Disse ela, abaixando o olhar, levando-a a encarar o chão.
- Te desculpar pelo quê? O problema de concentração aqui é seu. Enquanto não aprender a se focar, vai se perder rapidamente e inúmeras vezes. Você precisa encontrar aquilo que tanto quer, caso contrário, não sei o que será de ti. – Enquanto ele dizia essas palavras, mexeu no cabelo de Clara, afastando-o do rosto e subiu o rosto dela, levando seus olhares a se encontrarem novamente.
Ele acreditava nessa baboseira de concentração, de energias positivas e negativas e queria a todo custo que ela acreditasse que precisava mudar, pois estava indo em um caminho sem volta.
Realmente ela estava.
- Ok, um dia eu tento mais. – Disse ela se levantando, pegando a garrafa térmica, enchendo seu copo e tomando o líquido quente.  – Acho que vai nevar amanhã. Quer tentar novamente amanhã?
- Não, neve não serve. Hoje era o dia ideal e você o perdeu.
- Mas, mas.. Me desculpe!
- Te desculpar pelo quê? Você não me deve desculpas!
- Me desculpe por não conseguir acreditar em você, por não conseguir me concentrar no que você quer. Eu só tinha olhos para uma coisa, enquanto tudo acontecia.
- Olhos no quê?
- Você.
- Clara, pelo amor de Deus, não comece com esse típico discurso. Você é muito mais que isso.
- Ok, Arnaldo, posso até ser. Mas eu te amo do mesmo jeito.
Ela juntou suas coisas e foi embora.
Ele ficou ali, observando a montanha ficando cada vez mais verde bandeira, ao contrário da escuridão anterior. Continuava encantado pela natureza.
Ele queria muito se apaixonar por ela, mas, a verdade é que ele não conseguia pensar em mais nada que não fosse aquele maldito por do sol. Maldito, sim. Queria ama-la e não conseguia.
Ela chegou a sua casa trinta minutos depois, cansada. Havia descido a montanha rapidamente e ainda teria um longo dia pela frente.
- Não acredito que contei para ele...
- Não acredito que contei para ele... – Repetiu seu papagaio.
- Você me consola, Jake.
- Você me consola, Jake. – Repetiu novamente.
Voltou aos seus pensamentos até que o despertador a avisou que era hora de ir trabalhar.
Seu dia seria normal, afinal.
Enquanto abria a porta, Clara se deparou com uma imagem estranha: Arnaldo estava quase tocando a campainha.
- Oi. – Disse ela.
- Oi. – Disse ele.
- Não preciso de mais papagaios, Arnaldo.
- Não preciso de mais papagaios... Me desculpe, Clara. Eu queria muito gostar de você como você gosta de mim, mas é impossível. Não consigo. Eu juro que tentei.
- Obrigada por tentar, então. Agora eu tenho que ir trabalhar, até mais.
Eles continuaram amigos, é claro.
Ele continuou tentando convencê-la a se concentrar e todos os anos era a mesma coisa: Ele sorria para o sol, ela sorria para ele.
- Eu ainda te amo, Arnaldo. – Disse ela numa das vezes. Ele nem ouviu.

Vivemos em um mundo desesperado



Vivemos em um mundo desesperado.
Tão desesperado quando precioso
Tão errado quanto esperançoso.
Vivo em um mundo de caráter repugnável
um mundo do qual não se olha nos olhos
não se sorri com os lábios
não se beija com a boca.
Queria viver em Pasárgada, como diria Manuel. 
Queria viver na terra prometida, como diriam os judeus.
Queria viver em mundo diferente;
Onde ser desesperado não seja crime
Não envolva igualdades
Não envolva beijos
E muito menos, sentimentos.
Talvez não quisesse realmente viver.

7 de dez de 2012

Maremoto m'eu



Meus pés estavam molhados e sujos de areia.  A barra da minha calça parecia pesar uma tonelada e meu caminhar ficava mais lento conforme os minutos iam se passando.
Não estava perdida, tudo bem. Mas gostava da sensação que praias à noite me dão: Paz. Sensação de estar perdida. Sensação de poder recomeçar tudo a qualquer momento.
Não me conhecia, naquele momento. Foi então que me aventurei.
Comecei procurando vestígios de um mar dentro de mim, algo a desvendar. Encontrei um riacho.
Tomei banho dentro de mim mesma, reguei algumas plantas intocadas até então no meu coração, tapei buracos na minha memória.
Não chorei, acredite se quiser.
Reconstrui uma casa abandonada dentro da minha alma e me vi inteira novamente: Uma planta dando frutos, uma mulher pronta para amar.
Amar significa doar-se. Será que estava eu pronta para compartilhar minha cabana, deixar alguém cheirar minhas flores, tomar banho no meu rio¿
Me perdi novamente no meio da floresta.
Caminhei durante horas e horas, acordei com um policial com olhar triste me dizendo que eu estava imunda, que o sol já ia nascer e que era melhor eu sair dali, da praia.
Havia eu realmente me perdido¿
Havia eu realmente dormido naquela praia, à noite, sem perceber¿
Imaginei diversas possibilidades de roubo, boa noite cinderela, estupros, mas estava tudo ali, inclusive minha carteira, cordão e bolsa. Menos eu mesma.
Não me reconhecia, certamente.
Fui andando até minha casa – Eu já estava desempregada havia uma semana, ainda restavam muitas economias. Podia muito bem curtir umas férias forçadas. – Troquei de roupa e o telefone tocou.  Me ofereceram um novo emprego em uma nova agência de publicidade que estava só começando.
Fui para a entrevista com aquela roupa que mais parecia comigo mesma no momento: Algo claro, sereno, que demonstrasse paz, porém, com movimento, assim como o mar.
Consegui o emprego.
Conheci novas pessoas.
Continuei procurando a paz inóspita conquistada naquele único dia, continuei procurando o mar dentro de mim mesma, ou mesmo aquele riacho.
Encontrei o lugar seco e vazio.
Era necessário começar de novo e deixar alguém me ajudar.
Precisava voltar para minha real casa e talvez nunca conseguisse fazer isso sozinha.
Foi ai que eu o conheci.
Obrigada.
Hoje meu riacho está cheio, minha cabana habitada por dois, minhas flores se multiplicaram e minha alma parece ainda mais serena e tranquila: Porém, a qualquer momento, sinto que um maremoto dentro de mim mesma pode acontecer.
Demarquei toda a floresta, para que, caso um dia me perdesse novamente, conseguisse voltar sozinha, encontrar novamente quem eu tanto procurei.
Eu mesma.

6 de dez de 2012

Triste de felicidade



“Não havia ninguém lá. Somente eu, outras estrelas e uma paz que nunca tinha visto em lugar algum.
Também não havia oxigênio e eu não sabia como conseguia ainda respirar.
Meu vestido não voava e meu cabelo parecia sem vida. Para conseguir andar, era necessário um esforço meu tão grande, que desisti e apenas me deitei.
Olhando desajeitadamente a infinidade em que me encontrava, me perdi nos meus sonhos.
Sonhei que estava de volta ao planeta terra, que ainda observava as estrelas com meu telescópio e tirava fotos com minha câmera da lua.
Sonhei que podia voar, também.
Sonhei que era um planeta diferente, porém, acordei.
Estava eu, em um solo radiante e nada para fazer. Desejei imediatamente um caderno e uma caneta, algo para fazer.
Resolvi contar estrelas.
Parei quando cheguei à segunda: Ia ficar eternamente contando.
Lembrei de todos os meus livros já lidos, das histórias que cada um contava. Lembrei-me daquele bolo de laranja que minha mãe fazia e das histórias que meu irmão inventava pra justificar mais um risco na parede.
Ri de mim mesma.
Adorava estar ali, cercada de estrelas, porém, eu estava imóvel, não conseguiria jamais observar os quatro cantos daquele lugar, ver do que era feito ou compartilhar com o Thomas essa minha nova experiência.
Fiquei triste porque havia conquistado aquilo que eu tanto queria.
Triste de felicidade.
As horas pareciam estar passando, algumas figuras pareciam estar mudando de forma,  porém, nada realmente mudava.
Tudo naquele lugar era quase infinito: Não eram necessários movimentos bruscos, rapidez ou ansiedade.
Me cansei, como já havia me cansado uma hora depois que eu cheguei.
Desejei minha cama, meu travesseiro e aquele filme bobo da TV.
Desejei minha mãe e até as tarefas de casa.
Acordei do maldito sonho e percebi: Ainda ia querer morar em uma estrela. Porém, queria poder levar a TV a cabo, alguns cadernos, livros novos, paredes pro meu irmão rabiscar, minha cama, meu travesseiro, Thomas, minha mãe e o bolo de laranja. Só pra poder ter tudo que eu sempre quis sem sair de casa – Ou de uma estrela, no caso.
Só para ser egoísta a ponto de reunir tudo que eu sempre quis em um lugar só.”
Ela acordou. Ela nunca viveu em uma estrela. Ela nunca falou com o Thomas. Seu irmão nunca rabiscou uma parede. Ela nunca teve um telescópio e muito menos uma câmera. Ela nunca comeu bolo de laranja. Ela nunca conheceu sua mãe.
A única coisa que ela conhecia eram suas vontades: Que eram tantas e ao mesmo tempo tão poucas. Impossíveis para uma esquizofrênica e possíveis para um ser normal.
Queria ser normal, dizia ela.
Eu também, concordei. 

5 de dez de 2012

Esmeralda


Ela colocou sua cabeça no travesseiro cuidadosamente, enquanto esperava instintivamente a mão calorosa dele para acariciar seus cabelos. A longa espera de cinco segundos foi interrompida pelo silêncio em que o cômodo se encontrava.
Ela também não precisou pensar muito quando as lágrimas corriam por seu pálido rosto.
Um rápido sorriso – “O que irei fazer?”
“Com o que vou me agarrar, quando as coisas derem errado, como deram hoje?”
Ela passou a mão pela escrivaninha ao lado da cama enquanto procurava um objeto – seu celular.
Quando o achou e apertou um de seus botões, rapidamente o escuro em que o quarto se encontrava foi inundado por uma fraca luz azul que ardia os olhos até então fechados.
Nenhuma chamada perdida. Nenhuma mensagem de voz. Nenhuma mensagem.
Já haviam passado vários dias desde aquele fatídico dia.
Então, a história foi se reconstruindo em sua cabeça, assim como fazia com todas as outras que perseguiam sua memória e sua sobriedade.
Ele, Carlos, estava começando a demonstrar sentimentos diferentes por ela, divergentes do que ela chamaria de boa conduta ou talvez chamasse de amor.
Carlos queria muito dizer a ela que a amava, que queria segurar em sua mão e limpar seus olhos quando ela chorasse, mas, Esmeralda odiava qualquer tipo de toque físico – e até mesmo mental.
Se esquivou de qualquer chance de relacionamento pseudo amoroso com ele o quanto pode, até que ele acredite se quiser, a beijou. Beijou-a com a língua.
E ela gostou.
Isso soava tão pavoroso em sua cabeça, que quis morrer no momento em que tornou ao seu eixo.
Desde então não se falavam.  Porém, todas as noites ela sonhava com um carinho em seus cabelos que um dia talvez ele pudesse fazer. Sonhou tanto com isso, que se tornou real.
Então, quando parou, ela ficou louca.
Ele nunca mais ligou para ela – não que ela tivesse insistido muito do contrário.
Ouviu-se pequenos ruídos ao longo do silêncio antes evocado – Toques no celular.
Uma chamada.
“Oi.. Não é que.. Me desculpe. E-e-eu preciso muito de você.” Silêncio.
“Preciso quanto? Não sei se dá pra medir isso.. Muito. É, muito.” Silêncio novamente.
“Preciso do seu cafuné.”
Ele apareceu alguns minutos depois, entrou em sua casa pela porta da frente – nunca havia feito isso, ela era louca a ponto de achar isso um ritual sagrado destinado apenas a merecedores. Agora talvez ele fosse um. – Sentou-se ao seu lado na cama e finalmente fez o tão sonhado cafuné em sua cabeça.

Esmeralda acordou com os cabelos suados ao longo do rosto e corpo, havia sonhado.
Jamais ligaria para ele, assim como jamais receberia aquele cafuné.
Eles haviam terminado há tanto tempo, que antes não havia fios brancos em seu cabelo ruivo e hoje eles são predominantes.

Cinquenta anos se passaram e Esmeralda continuava a imaginar, como teria sido se aquele sonho tivesse se tornado, fatidicamente, realidade.
A tristeza toma conta do lugar, ela toma o sorriso novamente em seu rosto e diz, como uma brisa: “Impossível.”.

4 de dez de 2012

Novos problemas?


Ela abandonou o all-star e hoje usa um salto alto quinze.
Ela também deixou de lado o caderno com desenhos da capricho e hoje usa um simples, capa preta, para tentar demonstrar o mínimo de sentimentos.
Hoje, ela não sorri. Antes, era o que mais fazia.
No mundo em que criou, perfeita empreendedora virou.
Cresceu, ganhou busto e vestidos novos. Sapatos de boneca. Ganhou também um salário legal, um namorado legal, um carro legal e até alguns amigos legais. Ainda não era feliz completamente.
Tirou férias de tudo: Voltou para a casa de sua mãe durante alguns dias, colocou novamente seu all-star, conversou com o dono da mercearia na rua da sua casa.
Imaginou novos empreendimentos, ajudou alguns antigos amigos com suas próprias empresas, sem precisar daquele lindo vestido de dez mil reais.
Não causou quando chegou naquela tão esperada festa da cidade do interior.
Ela encontrou seu antigo amor. Ele sorriu para ela, assim como ela sorriu para ele. Dançaram apenas uma música e foi o suficiente – havia coisas que não precisavam voltar.
Alguns dias depois, voltou para o alto dos seus saltos, do seu apartamento e de sua vida.
Mudou o que foi necessário: Trouxe a realidade. Trouxe amigos do passado há pouco recém-chegados, terminou com um namorado que apesar de legal, não era tão bom assim.
Mas o antigo amor não voltou. Ela realmente tinha o superado. Pena que ele não podia dizer o mesmo.
Hoje, no alto de seus saltos, no alto da montanha que escalou, ela vê uma paisagem incrível e espera que algum dia, algum amor chegue até ela.
Enquanto isso ela tem seus amigos – e seu suado dinheiro. 

3 de dez de 2012

A chuva cai...


A chuva cai, meus sonhos vão para o ralo junto com as gotas caídas do céu.
Não sinto sua falta, não sinto saudades: Sinto pena.
Pena do que se foi, pena do que não ficou e mais pena ainda do que irá ser.
Encontrei a paz: Não precisei encontrar você.

2 de dez de 2012

A feia descabida

Ela amava tanto que sufocava. E de tanto sufocar, desaprendeu a amar.
Era difícil descrever o que sentia, só sabia que queria. Queria desesperadamente um cachorro, um gato ou algum doce. Conseguia - afinal, o que uma birra não fazia?
Depois de algum tempo, passou a querer um namorado. Não conseguia.
Não era bonita, não sabia ser amável, afável ou qualquer qualidade que fosse desejável.
Era estúpida, não sabia escrever corretamente e egoísta. Um bom fotógrafo não conseguiria converter a imagem daquela pré adolescente em um anjo. Jamais.
Continuou a querer o namorado, porém também quis montar uma banda, que fora comprada prontamente. O guitarrista sempre dizia: "Você canta muito bem! Devia ser nossa vocal"
E ai o contrato acabou.
Quis também mudar de escola, afinal, ela não queria ser mais uma daquelas meninas da sua escola. Quis sair da escola, afinal, ela não se encaixava em nada. Quis parar de estudar, afinal, isso não era pra ela.
E quis tantas outras coisas, e conseguiu tantas de todas elas, que só faltara uma para preencher seu ser.
O namorado.
Foi parar em um spa. Ficou magra, arrumou os dentes e contratou um personal stylist pra vesti-la todos os dias. Fez um rápido cursinho, comprou a ida pra faculdade e começou a ir em todas as festas.
Bebia em todas elas.
Alguns se interessavam, é claro. Uma imagem ruim havia se tornado mais ou menos. E mais ou menos no fim da balada é normal.
Mas ela abria a boca. Falava asneiras. Qualquer bêbado saía da bebedeira na hora, voltava pro seu estado de alerta e fugia - pra bem longe.
No final de cada noite, início de cada dia, ela dormia. Sonhava com o namorado.
Até que desenhou-o. E esse desenho se tornou realidade. Uma realidade gay, aliás.
Não adiantava. Estava condenada.
E, com o passar dos anos, tentou até uma namorada pra mudar o rumo das coisas. Tentou o silêncio, a boca fechada, de tudo, mas sempre algum comentário vazava.
Não era pra ser. Era pra estar.
Ela esperou e não foi.  Ela espera e não será.
É feia tanto por dentro quanto por fora.
Queria se ajustar: Mas será que ela deixaria ser ajustada?
Ela amou quem quer que fosse até sufocar. Sufocou tantos em sua família, que hoje está sozinha.
Sofrendo em Paris.