23 de jun de 2011

Presença de perda



Querida perda,
Espero que a sua chegada, seja lenta e tranquila. Que não seja tão devastadora, para que eu possa me acostumar com essa nova ideia. A sua chegada é tão óbvia que costuma ser complexa. Leva tempo para eu aprender a conviver com a sua presença. Com o que perdi, com o que ficou, comigo e com todos. Mesmo sabendo que é o ciclo da vida e que ele nunca acaba, não és tão comum como parece. Ou tão amiga.
Espero que você me ensine algo, algo que eu possa colher e replantar, com uma mais nova experiência. Queria também, que você chegasse desacompanhada. Mesmo sabendo que isso não irá acontecer. Pois consigo, trazes a saudade. E a saudade, traz tristeza. Eu sei que és constante na vida, e sempre irá me acompanhar. Mas a cada vinda sua, você me acerta, me derruba. Me destrói. E quando eu me recupero, você me acerta de novo. E o ciclo se repete outra vez. Sei que isso tudo faz parte da vida. Sei que a vida me dará algo, e em breve, irá me tirar o que possuo. Talvez eu aprenda com isso, talvez eu conquiste algo mais. Ou talvez eu me torture novamente com a falta. Já que sei que um dia você irá chegar, tento me preparar para uma boa recepção. Mas eu preciso que me ajudes. Que não me faça querer desistir. Que me mostre um outro lado nessa história. Me dando força e conhecimento. Desapego ao que perdi. E que logo você vá de partida. Me dando a tão desejada liberdade. E novas coisas, e novos motivos. E uma nova paz.

18 de jun de 2011

Superação

Você me olhava, como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo. Prestava atenção no que eu falava, como se tudo fosse realmente algo relevante. Você sorria das minhas piadas sem graça e também me abraçava no frio.
Quando eu precisava de alguém pra conversar, você estava lá, sempre disposto. E quando eu não precisava também.
Eu me acostumei.
Era fácil acostumar com aquela voz doce, aquele abraço, aquele beijo na bochecha e aquele sorriso. É fácil, na verdade.
Nós nunca esperamos que algo vá acabar, quando ele acaba de se tornar rotina, mas, acaba.
E o que realmente importa, não é o que aconteceu, como aconteceu e sim como você superou. A minha filosofia é: você pode superar bem ou pode superar mal. Quando você escolhe a segunda opção, xinga-lo é o primeiro passo. O segundo é ignora-lo. E o terceiro é sentir remorso. Porém, quando se escolhe a primeira opção, você acaba tendo apenas um passo: esquecer. Por mais que com a primeira opção te faça sentir um pouco mais de dor, no final, vai acabar passando mais rápido, sem remorso, só você.. e finalmente, você.
A vida é uma caixa de surpresas, o problema é que, a cada escolha, se ganha duas novas caixas (ou mais de duas) e, você tem apenas de escolher uma. O problema é que não se sabe por qual caminho cada caixa vai te levar, ou quais consequências e prejuízos cada uma vai te trazer. É questão de sorte, ainda por cima.
Eu ainda sinto falta do seu cheiro. E talvez eu vá sentir falta disso pra sempre. O que importa é que eu vou superar.
Você deixando ou não. Meu coração querendo ou não.
A verdade é que tudo vai passar.



"Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora, soltar, desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é." (Fernando Pessoa)

2 de jun de 2011

Plural.



Duas vidas, duas pessoas completamente diferentes e tão iguais. Ambos não desejavam nada, hoje anseiam a presença um do outro. Como dois imãs. Seus corpos exercem a lei da atração de forma inexplicável. Um abraço apertado, um beijo roubado e um “Eu te amo” sussurrado, já eram o suficiente. Um tapa bem dado, um beliscão, uma mordida, e uma careta pra descontrair. Era possível ouvir as risadas mesmo do corredor. 
Por onde passavam atraiam olhares, e os sorrisos não saiam de seus rostos. Os carinhos eram valorizados e sabiam aproveitar cada minuto da presença um do outro.  Quando se afastavam, logo sentiam o aperto no peito. Antes de se encontrarem, o frio na barriga com uma boa dose de ansiedade. Eram melhores amigos. 
A confiança era à base de tudo. Minutos, horas, dias distantes e sentiam uma enorme falta um do outro. Do toque, do cheiro, do abraço, dos beijos. A cumplicidade dominava a relação. Havia entre os dois um desejo, um pouco mais que atração e um forte sentimento. A amizade era quem reinava na história. Era a estrutura que sustentava as duas torres. Torres que antes estavam prestes a desmoronar. 
Não precisavam de muito, talvez apenas uma boa conversa e uma xícara de café. Minto. Eles apenas precisavam um do outro. Juntos superavam as dificuldades. Fizeram novos caminhos, novas histórias. Decidiram, quase sem querer, descobrir o mundo juntos. 
Todos os adoravam, torciam por ambas as felicidades. Desejavam o bem. Quem via de longe tinha uma única certeza. Eles também. Não era preciso muitas palavras para descrever o que sentiam. Na verdade, não havia descrição. Seus olhares, suas carícias e seus sorrisos os entregavam. Suas memórias guardavam os detalhes que não podiam ser descritos com papel e caneta. Eles dividiam as coisas, compartilhavam suas vidas. Eles estavam felizes. Eles se amavam. 

1 de jun de 2011

Marilyn


E eu fico lembrando do seu andar. Era calmo, surreal, parecia que flutuava. Eu ficava louco com aquilo. E seu batom vermelho? Aquilo me remetia as vadias, mas, eu sempre queria encostar naquela sua boca, te beijar calmamente e te fazer surtar. Seu cabelo loiro platinado, brilhava ainda mais no sol, o que podia cegar qualquer pessoa.
Você era mais bonita que qualquer pessoa desse mundo.
E sua sensualidade então? Meu Deus. Eu te olhava nos olhos, e tu não dizias nada. Sem sorrisos. Mas eu podia ver que me chamava, que me queria alí do seu lado, te tocando.
Tudo por uma janela.
Você foi minha paixão surreal durante alguns anos e eu tinha plena certeza de que uma hora ia ficar contigo. Ah, como eu tinha.
Me lembro bem de quando comecei a te mandar flores e cartas anonimas. Todas elas tão cheias de sentimento e verdade. E você ignorava.
Era meu anjo e meu demonio.
Você andava, agia como um anjo. Mas, no fundo você estava ardendo em fogo. Um demonio surreal, da qual encantava a todos.
Mas eu ainda queria você só pra mim.
Aquela imagem, do seu vestido se levantando, seus olhos fingindo vergonha, sua cor só um pouco diferente, aquilo foi crucial.
Não imaginava qual seria seu fim, sem mim.
E um dia, policiais tomam conta do seu lugar na janela, e seu sorriso se apaga. Sua voz é calada. Seu batom vermelho é colocado de lado. Um anjo novamente.
Não queria aquela separação, como não queria que você tivesse se casado com outros. Eu te queria só pra mim. Eu queria seu veneno todo colocado em mim.
Mas a guerra é uma mão de duas vias, e os tempos que passamos juntos estão eternizados em minha memória.
Sua carta, a primeira para mim, foi a ultima coisa que eu li, antes de ir pro céu ou inferno, te encontrar.

1º de junho de 1926 - 5 de agosto de 1962